Estrategia de Poker

O que os profissionais do poker acham sobre o GTO (Game Theory Optimal)?

O que os profissionais do poker acham sobre o GTO (Game Theory Optimal)?

A Teoria de Jogo Ótimo, ou Game Theory Optimal (GTO), é uma estratégia de poker onde os jogadores almejam tomar decisões matematicamente “perfeitas”, ou seja: aquelas onde o apostador sabe que as estatísticas de uma mão provavelmente estão lhe favorecendo.

Com o GTO, os jogadores de poker encontraram uma maneira de diminuir o quanto são explorados durante uma sessão. Mantendo-se perfeitamente na linha de decisões ideais para check, fold e raise, a variância se torna o “único problema” desses jogadores – e seus impactos também diminuem a longo prazo.

Essa filosofia de jogo tomou conta da comunidade nos últimos anos, especialmente após o desenvolvimento e modernização dos solvers – programas que auxiliam na aproximação matemática ideal, sobre os quais já contamos a história em outro artigo na PokerListings.

Apesar de soar como o “futuro” do poker, o GTO ainda divide opiniões entre jogadores, especialmente entre a nova geração e profissionais veteranos. Neste artigo, nosso time separou algumas declarações feitas pelos principais nomes do jogo de cartas no mundo, deixando você livre para definir qual a “melhor” filosofia de jogo em sua opinião.

Phil Hellmuth

Phil Hellmuth
Phil Hellmuth

Ao procurar por “jogadores de poker famosos” no Google, um dos primeiros nomes que aparecem é o de Phil Hellmuth

Com mais de US$ 30 milhões em ganhos apenas em torneios presenciais, um 1º lugar no Main Event e 17 braceletes da WSOP (o maior recordista de títulos da história), Hellmuth é uma referência para milhares de jogadores no mundo todo.

Não faz muito tempo que Hellmuth se envolveu em uma polêmica com outro grande jogador do cenário, Daniel Negreanu, tratando sobre o tema GTO. Em uma entrevista para Nick Vertucci, a estrela contou um relato e questionou o momento vivido pela comunidade ao redor dessa filosofia de jogo:

Hellmuth começou uma mão com AJ e, após receber o raise de um adversário, fez uma brincadeira para tentar retirar informações, dizendo que não ganharia de um AQ. Ao perceber que seu oponente relaxou, Hellmuth deu fold com seu AJ, mesmo que isso pudesse parecer inimaginável.

Ao contar isso para um regular mais jovem, Hellmuth conta que foi bastante criticado, como se a ideia de foldar um AJ fosse absurda. Entretanto, o maior campeão da WSOP afirmou que, enquanto muitos querem jogar só pela matemática, ele segue outro caminho:

Há uma geração inteira de jogadores para quem o poker é apenas matemática? […] Ninguém entende como eu ganho e, ao invés de aprender com meu jogo, eles apenas riem de mim”, desabafa.

Todos os meus críticos estão obcecados com seu amado GTO e estão sentados em seus mundos aconchegantes. […] Na minha opinião, GTO é uma estratégia muito vulnerável, mas nunca vou dizer exatamente qual a sua fraqueza porque eles irão mudá-la imediatamente”, completou Hellmuth.

Portanto, como você pode ver, Hellmuth não é um grande fã do GTO ou das pessoas que o praticam, como Negreanu.

Negreanu

Daniel Negreanu
Daniel Negreanu

Do outro lado da “ponte”, temos Daniel Negreanu como um dos defensores do GTO. O jogador já travou discussões com Hellmuth sobre essa filosofia de jogo, mas o trecho que iremos apresentar vem de uma resposta do embaixador da GGPoker em um Q&A no Reddit

Neste trecho, Negreanu apresenta uma visão não-binária sobre o uso do GTO. Enquanto alguns se definem 100% adeptos e outros 100% contrários, o profissional apresenta uma visão mais complexa sobre o seu uso. “Faz sentido você jogar contra oponentes tão bons quanto você”, explica. “O objetivo do GTO é jogar de forma equilibrada, para que os adversários não possam explorá-lo”, completa.

Mas a coisa é diferente em torneios baratos, onde afirma que é uma “terrível” ocasião. Ele dá um exemplo:

“Vovô Joe deu all-in no river. Você tem uma mão que, pelo GTO, precisa pagar para balancear. Mas, na realidade, o vovô Joe nunca blefa em tal situação, então você apenas o deixa ganhar o dinheiro”, explica. “Em torneios, o exploit sempre é mais lucrativo”, completa.

Phil Galfond

Phil Galfond
Phil Galfond

Phil Galfond é outro gênio do poker e pode ser reconhecido como um jogador do mesmo patamar que Hellmuth e Negreanu. Três vezes campeão da WSOP, Galfond explica que o GTO é a “base para identificar e explorar desvios”, permitindo que você saiba exatamente “como seus oponentes estão errando e como puni-los”, continua.

Como explicamos anteriormente, o GTO se tornou um dos assuntos mais comentados e pesquisados sobre o poker atualmente por conta de outro fator: os solvers. No início, o objetivo dos solvers foi permitir que os jogadores pudessem aproximar as suas decisões da Teoria de Jogo Ótima com o auxílio de uma ferramenta.

Uma frase conhecida de Phil Galfond ajuda a explicar esse fenômeno: “Solvers são o GTO na ponta dos seus dedos”, disse o jogador em uma ocasião.

Entretanto, em um vídeo publicado em seu canal no YouTube, Galfond alerta para os problemas de ter uma mentalidade 100% focada no GTO, com um exemplo:

Se você estiver absolutamente tomado apenas pela estratégia de otimização, você não vai notar ou nem mesmo ligar para meus desvios, porque você só está focado em fazer tudo o que o solver manda”, começa.

“O fato de você ser um humano faz você não conseguir executar isso perfeitamente, irão existir lacunas entre sua estratégia e o solver. E, como humano, estudando você, jogando contra você, vendo showdowns, vendo blefes que você não percebeu, vendo as calls que você não deveria ter dado, vou começar a me ajustar aos seus desvios”, continua.

E se você não notar meus ajustes, se você segue tentando chegar o mais perto do otimizado, você vai perder. Então é um erro muito comum achar que o jogador mais próximo do otimizado vai ganhar. O jogador mais próximo do otimizado é menos explorável, mas ao menos que estejamos falando de alguém com uma estratégia que não se adapta. […] Se estou jogando de uma forma dinâmica, foldando ou dando call com base no que você está fazendo, você não conseguirá se defender e eu ganharei, simples assim”, conclui o raciocínio.

Diferente de Hellmuth, Negreanu e Galfond entendem o GTO apenas como uma forma de entender o poker a partir da matemática, mas compreendem que o jogo vai muito além dessa estratégia. 

Michael Mizrachi

Michael Mizrachi
Michael Mizrachi

Se todos os jogadores anteriores tiveram grandes momentos de glória “no passado”, Michael Mizrachi é o grande nome do poker no momento. Em 2025, o jogador teve duas conquistas que lhe colocaram diretamente no Hall da Fama do Poker: o título do Main Event da WSOP e do US$ 50K Poker Players Championship.

Enquanto a “febre” do poker atual é o GTO, Mizrachi mantém o seu jogo clássico: “Eu guardo para mim uma porção do stack que preciso apostar e uma parte que preciso ser conservador. As pessoas provavelmente não conhecem essa parte “conservadora” de mim, mas eu posso ser bastante. Se tenho um grande stack, guardo 25% para blefar, 25% para flipar e os 50% para ser conservador e conseguir bons spots”, compartilha.

O jogador até reclama do tempo que os jogadores atuais estão levando para tomar decisões – provavelmente tentando prever todos os cálculos de GTO na cabeça antes de tomar uma decisão.

Todos esses robôs demoram muito para jogar e agem desse jeito onde acham que estão intimidando alguém ou provocando. […] Eu estou aqui para jogar poker, não para sentar e esperar 10 minutos por mão. Eu garanto que todo mundo sabe o que vai fazer com 10 segundos. Não deveria demorar tanto para saber disso”, completou.

Inimigos do GTO vs. Especialistas em GTO

Com a opinião de quatro estrelas do poker profissional, podemos entender que o GTO divide opiniões entre os profissionais de duas formas. Existem os jogadores que jogam com o coração, estão concentrados em ler seus oponentes, entender suas reações, prever seus movimentos, brincar com suas emoções.

Jogadores como Hellmuth ou Mizrachi possuem grandes conquistas porque não tem medo, e eles não têm medo porque as respostas já estão no inconsciente. Eles sabem quando um jogador blefa muito, ou tem uma mão boa e está escondendo uma surpresa. Tudo isso com observação e experiência.

Outros jogadores, como Negreanu e Galfond, são mais analíticos. Eles conhecem a importância do GTO, conhecem a matemática do poker profundamente e poucas vezes são explorados por adversários. Ambos são mais reconhecidos pela comunidade por conta de seu nível técnico.

O que muitos se enganam é: Galfond e Negreanu não são gênios porque jogam apenas em GTO, mas porque conhecem o GTO e também sabem da importância de se adaptar aos adversários. 

Negreanu e Galfond estão acompanhando a vanguarda do poker “matemático”, onde solvers não estão mais preocupados em apenas definir o que é melhor segundo o GTO, mas se adaptando ao perfil de cada jogador, stack, fase de torneio e diversos outros fatores, para definir as melhores decisões em cada spot.

Portanto, essa discussão chega a uma conclusão muito simples: o poker é extramente diverso e possui espaço para todos os tipos de filosofia, bastando que você saiba exatamente como as executar. Mizrachi, Negreanu, Galfond e Hellmuth possuem estilos de jogo únicos e ainda assim, todos são bem sucedidos no poker. O que todos possuem em comum é apenas uma coisa: filosofia definida e aprofundamento nesse estilo de jogo.