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iGaming bate recorde de arrecadação no Brasil, mas onde o poker entra nessa?

iGaming bate recorde de arrecadação no Brasil, mas onde o poker entra nessa?

O Brasil arrecadou quase R$ 6 bilhões entre janeiro e maio de 2026 com apostas esportivas e jogos online, as duas modalidades reguladas pela Lei das Bets. O crescimento explosivo representa um aumento de 86% em relação ao mesmo período de 2025, reforçando a expansão do mercado de iGaming regulado no país.

Mas um fato interessante é que o poker não entra nessa conta. Na legislação brasileira, o poker é tratado como um jogo de habilidade, com formas diferentes — e muito menos rastreáveis — de geração de receita. Se o poker não entra nessa conta oficial, quanto o Brasil realmente movimenta com o jogo hoje?

Quase R$ 6 bilhões que não incluem o poker

Chamada de Lei das Bets, a Lei 14.790/2023 regulamentou o setor de apostas no Brasil, criando o arcabouço fiscal responsável por essa arrecadação recorde. A lei trata de duas modalidades: as apostas de quota fixa, muito populares nos últimos anos (especialmente as esportivas), e os jogos online, como cassinos virtuais. Juntas, essas duas modalidades arrecadaram R$ 5,89 bilhões entre janeiro e maio.

Por que o poker fica de fora

Hoje, não existe uma lei específica que regule o poker. A Lei das Bets, por exemplo, não se aplica à modalidade porque ela não se encaixa na definição legal de jogo online ou aposta de quota fixa. No início dos anos 2000, o jogo de cartas chegou a ser considerado “jogo de azar” pela Justiça, mas diversas decisões passaram a reconhecer o poker, especialmente o Texas Hold’em, como predominantemente habilidade.

Em 2012, o poker passou a ser reconhecido pelo Ministério do Esporte como um esporte da mente, assim como o xadrez, o que levou ao registro oficial da Confederação Brasileira de Texas Hold’em (CBTH). Apesar de não ser uma lei, esse reconhecimento deu ao poker o “selo” oficial que o distingue dos jogos de azar.

O que ainda falta para o poker é a criação de diretrizes específicas. O PL 442/91, chamado Marco Regulatório dos Jogos, é o projeto mais próximo de tornar isso realidade — apesar de inserir o jogo de cartas em um guarda-chuva amplo de jogos, algo que não agrada à comunidade atualmente.

Então, quanto o Brasil movimenta com poker?

Atualmente, não existe um número oficial consolidado que mostre quanto o governo federal arrecada com o poker. Mas, analisando o mercado, é possível enxergar as diferentes fontes de receita que o jogo gera no país: dos grandes eventos aos jogadores que faturam milhões mundo afora. Esses valores têm crescido de forma consistente nos últimos anos, por caminhos como:

  • Grandes eventos — premiações distribuídas em circuitos nacionais como BSOP e KSOP
  • Jogadores profissionais — brasileiros faturando milhões em torneios internacionais

Grandes eventos: BSOP, KSOP e a economia dos torneios presenciais

Nos últimos anos, os grandes circuitos de poker brasileiros passaram a movimentar dezenas de milhões de reais por temporada. O Brazilian Series of Poker (BSOP) e o Kings Series of Poker (KSOP) estão entre os principais, com etapas espalhadas por diferentes regiões do país.

O BSOP Millions 2025 quebrou recordes, distribuindo R$ 134,94 milhões em premiações — somente na etapa final da temporada, um novo recorde para o poker latino-americano. Somando as demais etapas do ano (Costa do Sauípe, São Paulo, Gramado, entre outras), a temporada 2025 completa do BSOP ultrapassou R$ 150 milhões distribuídos. Em 20 anos de existência, o circuito já soma R$ 1 bilhão em premiações — metade disso só nos últimos dois anos e meio.

O KSOP também não fica atrás. A KSOP Carnaval Series, realizada em parceria com a GGPoker, teve US$ 20 milhões garantidos distribuídos em 258 torneios. Já o Main Event da etapa KSOP South America reuniu 1.126 inscrições e formou um prize pool de R$ 5,63 milhões, com R$ 1,1 milhão para o campeão.

Vale lembrar que o país ainda conta com outros circuitos relevantes, como o Campeonato Paulista de Poker, além do impacto indireto gerado por esses eventos: hotelaria, turismo, cotas de patrocínio e geração de empregos. Só o BSOP Millions 2025 envolveu cerca de 750 profissionais diretamente na organização, além de milhares de trabalhadores indiretos nos setores de hospedagem, alimentação e transporte.

Jogadores brasileiros faturam milhões

Se os grandes eventos geram dezenas de milhões de reais, os jogadores brasileiros também estão faturando alto nos principais torneios do mundo. Só João Simão, um dos maiores nomes do país, já somou mais de US$ 20 milhões em ganhos confirmados — e Yuri Dzivielevski ultrapassa os US$ 16 milhões apenas com resultados ao vivo.

Jogadores brasileiros que mais ganharam dinheiro com poker ao vivo:

  1. João Simão — US$ 20.790.977
  2. Yuri Martins Dzivielevski — US$ 16.209.193
  3. Pedro Padilha — US$ 7.411.075

Ao longo dos anos, dezenas de jogadores brasileiros já superaram o primeiro milhão de dólares ganho com poker ao vivo,  e esse número nem se compara ao que circula no poker online, onde a movimentação real é ainda mais difícil de rastrear.

Uma vanguarda jurídica que ainda precisa de dados

Apesar da falta de uma definição legal própria, o Brasil pode estar em uma posição de “vanguarda jurídica” ao reconhecer o poker como jogo de habilidade — uma postura diferente da adotada por muitos países da Europa, por exemplo. Essa é uma discussão histórica dentro da comunidade, que busca desmistificar o poker como jogo de azar e abrir espaço para atrair milhões de novos jogadores ao redor do mundo.

Essa visão já foi claramente validada pelo Judiciário brasileiro, mas ainda faltam passos. A ausência de rastreamento de dados é a lacuna que falta preencher. Isso não invalida o avanço já conquistado — mas pode ser o próximo passo rumo ao pleno reconhecimento do poker, com números que sustentem sua contribuição real para a economia do país.